domingo, 1 de abril de 2012

Sobre bruxas, magas e feiticeiros

Dentre tantas confusões que usualmente vejo por aí, a que me tomou mais tempo, no sentido de desvendamento, diz respeito à distinção entre bruxas, magas e feiticeiras. Não vou aprofundar muito o tema em relação à legitimidade da bruxaria, muito menos comparar os diversos panteãos e as tradições, porque não vejo utilidade algum em fazer isso.

Já tive inúmeros desentendimentos com pessoas que, no auge da arrogância - que encobre a mais profunda ignorância mascarada por pseudo-títulos de cientistas sociais que sequer leram o básico - fizeram apartações excludentes, de modo que não irei, aqui, fazer o mesmo. Antes e, para além disso, apenas vou comentar alguma coisa em cima do que antropologicamente se vincula à ideia de bruxaria.

A magia está usualmente relacionada a cultos e liturgias, por meio da relação contratual entre o mago ou a maga e as entidades que são subjugadas ao mago. Assim, há uma relação direta de dominação, na qual o mago se coloca no epicentro do jugo do ente do qual irá receber o favoritismo espiritual. Nunca é demais fazer menção ao tom ritualístico e formal usualmente disposto em um roteiro ou script de invocação, abertura de círculo, por meio da sacralização de objetos previamente destinados a tal.

A "magia" (ou bruxaria) gardneriana, ou até mesmo a alexandrina, nesse sentido, têm uma grande herança litúrgica da antiga prática formal, coexistindo, por exemplo, com o que foi anteriormente descrito e desenvolvido por Aleister Crowley em seus estudos. A formalização - longe de eu estar criticando - trouxe e traz, ainda hoje, uma reconstrução do que, no passado, pode, algum dia, ter se firmado numa tradição europeia.

A feitiçaria, por sua vez, agrega a ideia de "algo feito", do latim fatum = feito, operando no universo do desejo e da paixão, bem como do amor. A feiticeira atuaria como intermediária nos casos amorosos, ou, ainda, como envenenadora e perfumista. Essa era a concepção grega em torno de Circe e Medeia, grandes operadoras de aromas e sabores que, por meio de poções, atuavam nos assuntos secretos da arte nobre da sedução.

Além disso, a feiticeira europeia, principalmente a medieval, destaca-se pela conexão ao arquétipo da mulher subjugada pelo masculino, extirpada do meio social em virtude da alocação como bode expiatório de tudo aquilo que era estranho ao novo e emergente modelo de ciência estaria por anunciar.

Para Evans-Pritchard, a bruxaria seria uma condição psíquica inerente, que não demandaria atuação litúrgica ou ritualística. A simples presença da bruxa já seria condição necessária e suficiente para o desencadeamento dos eventos, pois ela encerra em si a potencialidade de, já conectada aos mistérios sagrados da Natureza, atuar na modificação do mundo ao seu redor.

Essa ideia é bem festejada quando falamos em "bruxaria natural" que, para mim, seria uma redundância conceitual, uma vez que, por princípio, bruxaria é prática, não religião. Por isso que, por muitas vezes, vi-me na situação de não me conclamar wiccana, por não me filiar à ideia de praticar uma religião, já que, por pressuposto, onde há a conexão, inexiste necessidade de religare.

Nunca é demais lembrar que, numa tradição familiar, a noção de deuses e as deusas, bem como o binário Deusa/Deus é despiciendo, porque a egrégora formada diz respeito aos ancestrais. O culto aos ancestrais, até mesmo na dinâmica celta vista principalmente na Irlanda, pauta-se na ancestralidade, ou seja, nos primeiros e grandes guerreiros que povoavam a Ilha Esmeralda, numa apologia clara à ideia de linhagem ancestral que se perpetua, alocando a geração atual para o olhar para o passado.

Buscar, assim, sua própria identidade, é pressuposto para o autoconhecimento e, dentro dele, a lembrança do que se vivenciou na Arte e que foi trazido para o ciclo de existência de agora.

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