segunda-feira, 2 de abril de 2012

O ir e vir das doutrinas religiosas e a superação do dogma...

Não existe fórmula "mágica" para se viver a vida, a não compreendê-la, em si mesma, como mágica de antemão. Paradoxo? Nem tanto, basta lembrar que o dualismo separou corpo e mente e, com isso, gerou o efeito danoso em nos posicionarmos no binário de mérito e demérito de uma existência que desloca as coisas do espírito para "um outro mundo".


Com a cisão da alma e do corpo advém a concepção de culpabilidade, já que um dos pilares de sustentação do dualismo reside na concepção (errônea) de sermos polutos por conta da mundanidade, ou, melhor dizendo, da carne. Em contraponto a isso residiria a necessidade de nos voltarmos para um mundo espiritual, como via de saída de uma "ilusão" gerada, em escala radial e planetária, por nossos déficits de ego.


Esse escapismo, por sua vez, ao contrário - esse é meu argumento - de nos elevar no sentido de buscarmos evoluir por meio do caminho ou da senda espiritual, soterra-nos até as entranhas em nossa sensação de culpa, porquanto   nos cobramos, o tempo inteiro, em relação a sair da "matrix" de ilusão, convencendo-nos de que tudo nesse planeta - absolutamente tudo - é decorrência de Maya. Ledo engano, pois em algumas literaturas hindus e budistas, Maya é um estado mental que se irradia para o estado físico por ser condição irremediavelmente atrelada ao conjunto mente-corpo.


O que desejo argumentar, com isso, é que não existe ilusão alguma fora de nossa percepção e, quando muito, ela deriva de nossa errônea suposição de as coisas - seres, objetos, tudo - serem apartadas em energia e matéria. Essa "polêmica" suscitada incessantemente pelas religiões (daí o "religare", ou seja, a ligação mente-corpo) tradicionais já foi superado, há tempos, tanto pela Física Quântica, por ocasião da experiência de Heisemberg com o bombardeio de elétrons, quanto pela resultante de uma mudança de paradigma científico, trazida por físicos como Amit Goswami e Dana Zoahr. 


Já na década de 40 do século passado, Heisemberg prenunciou a natureza dual do elétron, que ora se comporta como partícula (ou seja, matéria), ora se comporta como onda (ou seja, energia). Não são dois entes habitando um corpo (aliás, essa noção de corpo é bem precária para explicar a complexidade oscilatória do elétron), mas, antes, uma mesma entidade que se "mostra" ou detém a potencialidade de, em dadas situações, comportar-se de uma ou de outra maneira.


Essa descoberta, enunciada a partir do princípio da incerteza (é impossível saber, com exatidão, a posição exata de um elétron), traz o conforto de se contemplar a superação, em definitivo, das antigas tradições que insistem em observar a vida e as coisas do mundo com uma lente monofocal, que despreza, ao final, a multiplicidade com que o Universo se apresenta para o ser humano. 


Algumas tradições mais antigas do hinduísmo e do budismo já enunciavam tais descobertas 'científicas' há tempos, com outras nomenclaturas. Mas a "ocidentalização" de ritos, por meio da leitura de peças traduzidas e desencontradas trouxe - como, de fato, traz - o desvio de perspectiva em relação ao que se pratica a partir de um ecletismo que tem apenas reproduzido a mesma ideia de binário (mente e corpo como entidades apartadas). 


Quando optei pela reclusão quase que monástica em relação às práticas espirituais, decidi encarar de frente a dualidade para, a partir dela, não procurar conceber a vida como milagre. Passei, por muitas vezes e para muitas pessoas, por "dura", "cética" ou "severa", mas, no fundo, o que estou querendo apontar diz respeito a não encarar vida alguma como milagre e sim como o resultado de um sistema perfeito em que a superação do dualismo dá origem a ações que não obedecem às leis causais e deterministas da Física Clássica. 


Eis a razão pela qual sempre fui da opinião de ser um físico quântico o maior dos espiritualistas: ele não vê o fenômeno, apenas o deduz de suas equações em cima de uma compreensão perfeita de funcionamento orgânico da vida lá e cá: eis o sentido do que chamo fé... Apenas isso.


O que não aceito é a reprodução automática e irrefletida de um modelo de espiritualidade que se baseia em dogma para se construir num fundamento de apartação da carne e do espírito, pois, dentro disso, estaríamos a reproduzir o modelo de culpabilidade do qual tentamos - com sofreguidão - escapar há pelo menos 2.012 anos... Com isso não se torna necessário religar nada a coisa alguma, porque mente e corpo constituem um sistema só, com propriedades que se manifestam de acordo com o estado de conscientização alcançado pela percepção de si e desse sistema. 


Não se torna necessário se elevar, como se o corpo fosse imprestável e eivado de chagas. Não se torna necessário desprezar o mundano, colocando num devenir incerto (incerto porque depende da consciência e para onde ela nos enviar) nossa perspectiva de evoluir. O amar precisa ser no aqui e no agora. O se relacionar precisa estar aqui também e, sobretudo, a responsabilidade em relação aos nossos atos assim também precisa ser. 


Por que? Simples. Porque não existe ruptura temporal entre o que se passa para o império da energia. Tempo é uma variável igualmente deduzida em face da concepção originária de dia e noite enquanto binários ou opostos. Mas sempre é importante lembrar que um não é a ausência do outro (Sol e Lua, no caso): é a opção de deslocamento momentâneo, num ciclo de eterno retorno, a síntese da existência contínua. Eis a razão pela qual nem em reencarnação acredito mais...Não com essa noção de reentrada em "nova carne", já que o carbono é o mesmo...estava aí desde tempos imemoriais, mantendo constante o grau de entropia do Universo...


E viva a física quântica!!!!



Um comentário:

  1. Olá
    Concordando plenamente com ilustríssima articulista,apenas gostaria de acrescentar que a Reencarnação, igualmente divulgada por Amit Goswami, entre tantos outros estudiosos e pesquisadores, já poderia ter sido considerada uma teoria, senão uma Lei, haja vista os milhares de casos estudados para os quais somente a reencarnação os explicaria de modo satisfatório.
    Desse modo, algo que passa para o campo da observação já não é mais matéria de crença ou fé, na pior hipótese, seria da FÉ RACIOCINADA, na feliz expressão do insigne Allan Kardec.
    Para quem estuda tais questões a reencarnação já é factível de ser comprovada, necessitando apenas da adesão das academias, pois cientistas independentes já aderiram.

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