sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

De volta ao lar sagrado e a preparação de mais um giro de roda


As voltas ao lar sagrado de nossa quietude espiritual - depois de momentos lúdicos de viagens de final de ano - são importantes sinais, marca da transposição de obstáculos, bem como da superação de si para, no retorno, nada ser como antes.

Quando saímos de casa, no sentido físico da palavra, quer seja de férias, ou, ainda, num simples trânsito a trabalho - sujeitamo-nos à mesma lei de impermanência que move a Terra, o Céu, o Espaço e, enfim, o Universo e, com isso, não somos os mesmos a nos banhar nos rios impermanentes de nossas próprias existências...

O rio não é o mesmo, tanto segundo segundo a tradição pré-socrática da Escola de Heráclito de Éfeso, como na compreensão fluídica do triskle que projeta a espiral cósmica da teogonia celta. Diante da infindável gama de tradições, a percepção consensuada e unívoca baseia-se na dimensão de mutabilidade: também não somos imutáveis, lembrando a regra hermética de bruxaria que insculpe a assertiva de transmutação - "sólido se dissipa no ar".

A mala volta repleta de novidades, denunciando que nossa viagem resultou em transformações, ainda que imperceptíveis. Camisas e vestidos brancos cedem espaço para o colorido das vestes que, numa praia ou num luar, concretizam o arco-íris de mutação em pontos específicos de nosso viver. Presentes, dádivas ou "lembranças" despertarão sorrisos, transmutando, ainda, semblantes taciturnos em ternura infindável de amorosidade. Na arca de memórias, as maiores mudanças, pois a alma registrará toda a movimentação do que foi visto e apreendido com a acuidade de uma lente perfeita, forjada nos céus de nossos horizontes renovados.

Uma mudança de curso (ou de itinerário) sedimenta mudanças também em nossas vidas, pois a escolha, dentre vários caminhos, traz sempre o convite à reflexão sobre a seguinte questão: "o que teria acontecido se eu tivesse escolhido esta caminho?". O caminho que ficou para trás excluiu, é bem verdade, outro, trazendo a indelével e incômoda certeza de "perda" a encobrir o que, de fato, está por trás, a harmonização entre destino e arbítrio, inexorabilidade e probabilidade, a dualidade a que sempre estamos nos sujeitando, pelo simples fato de sermos seres humanos no encalço de contrapontos.

Voltamos ao abrigo de nossas vestes para o realinhamento de nossos ciclos. Após dias e dias de aventuras, o espírito retorna ao casulo e, compondo uma linda crisálida, aguarda, com parcimônia, a renovação da vida e da morte, da morte e da vida em cada pequeno átimo de segundo em que soltamos nossos pulmões para agradecer ao Universo!

Sim, eis que surge o novo tempo de agradecimento pelo que deixamos para trás, tal qual o banho no rio eterno de nossas peculiares espirais, que aconchegam, dia após dia, nossos corpos que estão interagindo nessa existência de pura benesse.

Nossos ancestrais aguardam por nós em nossas moradas, sìdhes para os quais nossas essências se voltam, contemplando a fonte eterna de nossos ciclos. Nosso passado se entrelaça com a retumbância de um futuro que apenas depende da sofreguidão do presente, nada mais. Saudamos, assim, no sagrado retorno, a nós próprios, bem como o princípio corporificado nas deidades que representam nossa identidade nesse Planeta de vivências tão maravilhosas!

Tempo de agradecer pela farta colheita de 2011 no primeiro festival, enfim, que marca o sentido de gratitude: Lughnasadh, o festival dedicado ao Deus Solar Lugh, princípio unívoco da identidade universal e arquetípica, enunciado do que colhemos ao semearmos nossas terras com o furor da força que reside em nossos corpos.

Aproxima-se a hora do giro e, com ela, derramamo-nos em quimeras honrosas, apreciando o néctar profundo que sai do suor com que laboramos nossa estrada... Volto para o alento de minha morada, trazendo para a vida dos que me são caros tudo aquilo que poderia compartilhar nesse lindo ciclo de 2012.

Fàilte, Lughnasadh!

2 comentários:

  1. amada vem pro Lar Sagrado Arco-iris aqui em ubatuba :D saudades, bj de coraçõa

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  2. Muito grata pela lembrança!
    Céad mille fáilte!
    \o/

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