quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Os fogos de Beltane e o giro da roda do sul...

Na última década de movimentação do neopaganismo no Brasil e no mundo, o dia 31 de outubro tem trazido uma novidade especial para o povo brasileiro.

É a ocasião em que os noticiários anunciam reportagens repletas de alusão ao imaginário popular estadunidense da celebração de Halloween, momento em que as crianças, vestidas de monstros, fadas, bruxas e vampiros, saem de casa em casa entoando a fórmula "mágica" - tricks or treats (gostosuras ou travessuras) -, na esperança de terem suas sacolas recheadas de guloseimas que desafiam qualquer dentista mediano a gastar amálgamas e amálgamas nas reconstruções dentárias das crianças.

Sem entrar numa odisseia sobre a "origem", etimologia ou terminologia do evento, acho importante, em véspera de Beltane, diferenciar esse Festival solar de alegria com a festividade que faz parte da cultura popular estadunidense, a partir do que Beltane (ou Beltaine) representa em termos de giro da roda do ano, ou, para mim, do ciclo de adoração dos ancestrais em conexão à Natureza Sagrada.

A antiga e nobre arte da bruxaria coliga-se aos ciclos naturais e, por conta disso, não poderia ser diferente a disposição, em cada hemisfério, das festividades a serem celebradas, já que, ao final, o que se pretende é a celebração da sazonalidade da Natureza plasmada na experienciação do humano.

A Sacra Physys (Natureza) segue seu próprio ritmo de nascimento, crescimento e morte, numa espiral que se renova, dia após dia, estação após estação, sempre trazendo um diferencial relacionado às etapas dentro de um continuum que se renova, por, de fato, não ter fim. Assim, para celebrarmos a roda do ano importante a consonância com nosso ritmo interno de pulsação, harmonizando-se mente, corpo, alma e psiquê à confluência dos poemas dadivosos que a Natureza revela, quer seja no equilíbrio entre os elementos, quer seja no silêncio da reflexão para a "escuta" do Universo.

A sazonalidade, para mim, respeita o fluxo constante do que a Natureza se me coloca, por meio da disposição de seus "ritos" materializados nas estações dispostas segundo o hemisfério sul [logo, logo chegarei ao Halloween], que irradiam os efeitos para cada parte de nossos corpos. Quem não sabe das lunações que influenciam marés e fluxos menstruais?

Aqui no cerrado, por exemplo, na época de seca - sincrônica ao outono/inverno - nossa pele e lábios ressecam, racham. A umidade do ar diminui, lembrando-nos da necessidade de nos guarnecer da preciosidade da água e, na escassez dela, harmonizarmo-nos com os demais elementos, aguardando a chegada da purificação.

Tanto que, esse ano, diante de uma seca sem precedentes na história (por volta de 5% de umidade, segundo "dados oficiais"), a primeira chuva que chegou à cidade trouxe uma egrégora de agradecimento geral, pois as pessoas, de seus lares, deram aquele suspiro "ahhhhhhhhhhhhhh" a uma só voz, que ecoou ao Infinito.

Assim, o Solstício de Inverno, aqui, no hemisfério sul, chega por volta do dia 20 ou 21 de junho, enquanto, no hemisfério norte, chega por volta de 20 ou 21 de dezembro. Samhaim, por aqui, celebra-se em maio, Yule em junho e por aí em diante.

A egrégora de poder, a partir de tal ciclo inerente à Natureza, é diferente no hemisfério sul, se confrontada com o hemisfério norte, fazendo uma importância enorme a celebração no pulsar segundo o giro da Terra, já que a comemoração sazonal segue esse ritmo incessante, para adequar nossos relógios internos, biológicos, ao ritmo da Natureza e, portanto, da Terra.

Com isso, o respeito aos ciclos da Natureza passa a ser uma demonstração de perfeito ajustamento e criação da Terra de suas condições de plenitude. Daí, nesse sentido, as estações do ano, o sistema de rotação da Terra em torno do Sol e, portanto, a própria rotação em torno de seu eixo serem parte de tamanha perfeição e internalizados, como habitus, pela ancestralidade.

Os antigos, muito antes da ciência explicar o efeito Coriolis (resultante da rotação da Terra em torno de seu eixo longitudinal. Observe o ralo da pia: ele girará no sentido anti-horário no hemisfério sul e no sentido horário no hemisfério norte, por conta da diferença entre os pólos nesses dois hemiférios), já sabiam disso.

O mesmo pode ser dito em relação às estações do ano, que são invertidas nos dois pólos, trazendo uma distinção entre as celebrações sazonais nesses dois pontos específicos.

Em outubro no hemisfério norte, a adaptação de práticas puritanas ao ideario tomado como pagão resultou na festa de Halloween, que não se confunde com a celebração, por volta dessa mesma época, do festival de Samhaim, ocasião em que o véu entre-mundos se desfaz para a porosidade de conexão das egrégoras de vida e de morte.

Uma celebração relaciona-se com o puritanismo protestante que se desenvolveu - ao longo do processo histórico de ocupação e povoamento da colônia - nos Estados Unidos; outra está intimamente relacionada com a repaginação mítica dos recortes da movimentação do neopaganismo, em boa parte de suas vertentes e manifestações de tradição europeia.

Assim, pelo giro de roda do sul, não estamos em "véspera" de Samhaim e muito menos o Halloween é considerado data comemorativa da roda do ano celta. Nem wicca. Quando se fala em "dia das bruxas", não se pode ter como sinônimas essas datas e, o que se tem como mais absurdo, não acho sequer razoável a publicidade em torno das "bruxas de ocasião" que, todo ano, povoam os noticiários para mostrar uma cultura que, de fato, nada tem a ver com a repetição da prática de Halloween. Simples assim.

Beltane é uma comemoração solar, um festival ígneo por natureza e, por essa razão, é antípoda a Samhaim (que celebra o além-vida). É uma época de encontros e uniões, em ritos de fecundidade e fertilidade, marcando a junção Sagrada entre as polaridades do Universo, a simbiose entre os princípios masculino e feminino.

O momento, em Beltane, é de festividade, musicalidade, movimento na espiritualização (basta lembrar que o fogo é o elemento do espírito, o "hábito" do dragão, que dá origem à toda vida). Iluminação, tochedos e cânticos para celebrar o encontro sagrado entre anima e animus, masculino e feminino, Deusa e Deus em seus arquétipos incorporados.

Segundo a lenda, as concepções em Beltane eram abençoadas pelo próprio Casal Sagrado, como forma de prestigiar a humanidade com o acesso à sacralidade dos sìdhes, moradas inalcançáveis dos deuses e das deusas.

Tal celebração nada tem de similitude com a data que se pretende incorporar ao calendário brasileiro como "dia das bruxas", porque, nessa época, estamos em pleno pico da Primavera, saídos de Ostara, um festival de renovação de colheita (uma das grandes colheitas da roda do ano). A alegria contagiante de Beltane destoa, assim, da austerida e da introspecção presentes em Samhaim. São risos, e não silêncio, que precisamos, até o dia 31 de outubro, cultivar dentro de nossos corações e práticas...

Fàilte, Beltane!

2 comentários:

  1. Vc é maravilhosa..vou acompanhar o blog..bjs

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  2. Adorei os dois blogs...me surpreendi com tamanha quantidade de leitura interessante aqui...parabéns pelo seu talento...bjs

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