terça-feira, 1 de março de 2011

Dia 08 de março: de vitimização a empoderamento...

Quando iniciei minha jornada nos estudos doutrinários feministas, mal sabia que a estrada de luta que já percorria assim o era há tempos, pois desde quando sei de mim me pego diuturnamente num mundo repleto de bizarrices e piadas de triplo sentido, de atitudes desqualificadoras e de pura discriminação.

O campo jurídico - do qual faço parte - sempre foi assim, um cenário bélico de competição de testosterona, onde a permanência como mulher, muitas vezes, era entendida e "manuseada" perante os tribunais num momento bem pontual: na hora de despachar uma peça, pois, só assim, a "beleza" poderia "cativar" e "amolecer" os corações (o verbo não seria "amolecer", muito menos o órgão seria o coração, mas para preservar algum caráter lúdico, preferi manter o véu de sonhos que ainda poderia embalar as neófitas em gênero e feminismo).

Nunca me deixei vencer por isso, pois a escolha que fiz foi por outra via: a de estabelecer meu espaço de poder e atuação muito mais pelo que sai da minha boca e de meu cérebro, do que pelo que toneladas de silicone e botóx podem propiciar. Não estou aqui querendo fazer um tratado contrário em relação aos benefícios dos tratamentos estéticos e plásticos, mas sim ponderando sua utilização com o propósito de atribuir, num plano de atitudes de poder, um peso maior à indústria da vaidade como sendo via para o exercício de potestade.

Pois bem, com essa escolha investi em mim. Em meus estudos, trabalho, na atividade intelectual. No empoderamento acadêmico e, no caso, profissional. Eis uma grande constatação posteriormente feita, pois o perfil "pro-ativa" era visto ou tido no binário de segregação de gêneros, como sendo "atributo natural" do império masculino.

Cansei de ouvir colegas - homens - sugerindo que eu fosse mais "calma, branda, serena" para "conseguir as coisas na conversa 'mansa'", pois "uma mulher precisa ser delicada". Percebi se tratar do Anjo da Casa de Virginia Woolf, materializado na boca enfadonha dos profissionais que, com desdém pelos diversos títulos que trago na bagagem, falavam em condicionamento da minha alma, algemando minha personalidade a um arremedo de ser que nada tinha a ver comigo.

Ser "delicada", "agressiva" nada tem a ver com ser ou estar mulher ou homem: trata-se do atributo universal inerente ao ser. Mas, dentro da profissão, amarguei 15 anos ouvindo isso mesmo...Que deveria ser delicada e mostrar, num decote, minha voluptuosidade para as autoridades, com o intuito de, cegando-os, conseguir o que desejasse.

Ou, então, no mesmo campo jurídico, mas em termos de academia, já amarguei inúmeras manifestações de desconfiança em relação ao conhecimento, por ministrar aula em um nicho outrora nitidamente masculino: direito penal.

Até hoje não temos, a bem da verdade, uma doutrinadora penal para escrever livros de dogmática, os famosos manuais, pois o campo é masculinista. não sei, talvez deva mudar isso, mas é assunto para outro post. A grande questão, aqui, é que a entrada em sala de aula sempre foi o momento crucial de expectativa, para saber quantos ou quantas alun@s iriam se contrapor à minha fala em face do gênero.

Minha experiência de sala - longe vão mais de 15 anos também - mostrou que, durante meu percurso, o universo masculino sempre se incomodou. E, enquanto assim fazia, outro fato acontecia: o universo feminino ia se empoderando intelectualmente.

Enquanto uns gastavam o tempo tentando encontrar vias de deslegitimar meu lugar de fala, outras preocupavam-se em fazer o que haviam de fazer numa academia: estudar. Isso fez e faz a diferença, pois hoje vivencio a experiência de observar um coletivo onde homens e mulheres, seres humanos, estão em igualdade, mesmo em suas diversidades...

Até então, ressignificava o dia 08 de Março como uma data dúbia, que trazia - em meu juízo de igualdade asbtrata e formal - uma pecha de revitimização e legitimação de diferença, pois em meu universo, o binário contraposto era igualdade e diferença. Depois que revi meus conceitos para perceber a dimensão da igualdade em seu aspecto "relacional", bem como na ressignificação do binário igualdade-desigualdade, e não igualdade-diferença, tenho no dia 08 uma data expressiva de lembranças...

Toda luta é marcada de tragédias...E o mundo estabelece datas que sempre estão a lembrar as dores e as tragédias exata e pontualmente para deixar claro o quão perto da morte todas nós estamos...

Viva o dia 08 de março!

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