domingo, 20 de março de 2011

Celebrando a chegada do Equinócio de Outono!


Dia 21 de março despedimo-nos da honrada data solar de Apogeu da Luz para, enfim, abraçar a mudança de ciclo com a chegada de Mabon, um festival que marca o Equinócio de Outono aqui no hemisfério sul.

Como toda grande virada para outros ritmos, Mabon espelha agradecimentos pelo que passou e foi colhido em Lughnasadh e armazenado para a grande transmutação em Samhain, quando, diante da hibernação da luz, prestamos odes à reflexão, com o fim de nosso calendário.

As sementes e os grãos das colheitas são abençoados e estocados para os dias frios, sendo a data um convite à calmaria de espírito, visando, assim, poupar energias para o devenir de Yule, após a virada do ano celta do dia dos mortos. As folhas começam a secar nas árvores que se coordenam, uma a uma, para armazenamento de forças para o inverno que se aproximará. A superfície abençoada da Terra cede espaço a novos contornos de cores, mostrando o quanto a Natureza é bela em seu benevolente arco-íris renovador!

É dia de pães pesados e integrais, vinhos quentes e proteína farta! Usamos cores terra, marrom, terracota, marcando bem uma mistura entre o aquecimento de Litha (amarelo e laranja) e a sisudez do inverno (cinza, marrom, preto).

Em Mabon a Natureza toda se prepara para se estabilizar numa baixa metabólica: eis o grande sentido revelado na sabedoria incomum dos grandes ancestrais que, por meio do intenso fluxo de trabalho, guardavam sabiamente as provisões das colheitas nos outros festivais de roda para, diante do frio e da quietude da neve, poderem se manterem até o aquecimento da terra.

Não se trata de mera "gulodice" material ou espiritual, aquela velha noção de ganância que usualmente nos impeliria para a retenção de proventos de toda sorte "debaixo do colchão", pois a Natureza não segue tamanha mesquinharia como pressuposto.

Não, em Mabon a provisão é algo inerente ao ciclo de vivência do sagrado que reside na sabedoria de antever uma situação de contingência natural, que segue, por sua vez, o grande ritmo da vida!

Um suporte para os momentos de dificuldade que, a bem da verdade, fazem parte de nossa trajetória aqui. Suporte este que, por sua vez, tinha um destino certo: longe de ser meramente estocada, a alimentação dos antigos seria, adiante, consumida pela coletividade, marcando, assim, uma provisoriedade na compreensão do que significa a palavra "providência".

Os antigos eram realmente omniscientes, não?

Percebiam no recolhimento diante da dificuldade do inverno rigoroso a preparação para a vida, enfrentando, com dignidade, a baixa temperatura, a escassez de caça mas, sobretudo, a celebração em torno do calor da fogueira do clã: eis a grande lição que percebo e vivencio em Mabon! Guardamos nossas bem-aventuranças para, em volta da fogueira, compartilharmo-nas com nossas pessoas mais amadas!

Aqui no cerrado não temos neve, mas vivenciamos um inverno de muita seca, com temperaturas altas durante o dia, com o Sol mais frio do que o usual. Com a chegada da noite, o frio enfrentado por nossos ancestrais aparece, para nos lembrar, dia após dia em nosso inverno pessoal, que luz e sol, vento frio e brisa quente estão mais próximos de nós do que supomos, pois formam nossa paleta de experiências.

Olhar para elas com o tom de desapego da carga emocional do que sombra e luz significariam como metáforas de "bem" e "mal" é importante para a superação da dualidade que tanto nos apartou da Natureza.

Eis o sentido da bruxaria para a minha vida, uma dimensão que não é mais semântica ou discursiva, mas, antes, uma vivência que já "colou" em cada um dos átomos que formam meu sistema corpo-alma. Com isso, a transcendência cede vez para a imanência em que sentir os deuses parte de um estado latente em si, não mais uma "elevação" para algo surreal e etéreo.

Por isso, longe de representar um festival em que apenas rendemos graças à colheita passada, Mabon marca a gratidão diante de um devenir de novos ciclos. Mas, para o novo entrar, é sempre importante lembrar que o antigo precisa, de alguma maneira, sair. Ou, como me disse ontem uma pessoa extremamente querida, basta a transmutação, a transformação, no lugar da mera noção de destruição.

Dessa forma, novo e velho, enquantos paradigmas dentro de nós (valores, crenças etc.), coexistem e pulsam, porque nos formam e orientam nossos passos até aqui, em fluxos constantes de latentes modificações.

Se não temos a sensibilidade em perceber a sutileza da transformação, podemos equivocadamente acreditar em um fim - geralmente dolorido -quando, de fato, inexiste distinção entre início e final para a Natureza. Essa aparente ruptura que nos soa a "destruição" pode, por sua vez, trazer a falsa sensação de "vazio" diante dos acontecimentos que são lidos falsamente como inícios e finais.

Afinal, sendo cada uma de nós um caldeirão de experiências, tudo existe ao mesmo tempo! Daí a ideia de vivenciar a transformação como o vento saudável dos limiares de vida. Foi essa a grande lição apreendida em minha vida nesses últimos meses...

É a transformação - e não a dicotomia destruição-criação - a marca maior do Universo . No caso, em Mabon, fica bem claro isso para mim, pois o outono nada mais é do que a estação "entre-estações" nitidamente antípodas (verão e inverno), dizendo-nos, assim, que entre o branco e o negro existe o cinza, bastando ajustar nossas lentes para a superação da dualidade...

Fàilte, Mabon!

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