domingo, 9 de janeiro de 2011

A conexão com o Sagrado e a importância da intuição nos processos de conhecimento


Aprecio intensamente uma proposta etimológica verbo "intuir" a partir da conjugação entre "intus" + "ire", ou "ir para dentro", porque lembra uma epopeia mítica de introspecção da alma, uma jornada visceral que move nossos instintos e desloca a mente para a comunhão com o Sagrado Feminino.

Vejo na intuição a percepção do divino, etéreo e simbólico - invisíveis ao mundo físico e sensorial - que extrapola um sentido transcendente de alcance da deidade (religare), reconhecendo nela (intuição) dentro de nós (imanência) como atributo defluente de um estado de bem-aventurança com a intrínseca rede que nos cinge ao holos.

Particularmente falando, reconheço na intuição a voz das deidades ancestrais que acompanham minha jornada nesse planeta, a chama da Grande Mãe perceptiva e acalentadora, omnisciente e segura de sua vidência ampliada e plasmada num continuum temporal que, de antemão, revela possibilidade no aqui e no agora. É a linguagem arquetípica do sagrado que, transpondo a racionalidade que muito pouco revela, traz simplesmente o Universo para dentro de mim e, com isso, revela a verdade que não se acessa pelos domínios da razão.

Diante disso tudo, nunca é demais relembrar que, por excelência, o significado latente do que a palavra witch (wise) traz agregada como valor a noção de sabedoria infinita e inesgotável presente na mulher que, não tendo se apartado da Natureza, mantém acesa a vivência de uma senda conectiva, celebrando em si (corpo, mente, espírito, emoção) os ciclos, as lunações, as estações e as colheitas, dando sentido especial ao que Hermes Trismegisto (depois, no patriarcado apropriatório do conhecimento feminino) disseminou como "lei" - "o que está acima é o que está embaixo".

Eis a razão pela qual insisto sempre em afirmar que bruxaria não é religião (e sim uma vivência consciente e integrada) e que uma bruxa, por excelência, não precisa se religar, pois, como pressuposto, nunca se desplugou de si ou de seus conhecimentos mais profundos, conscientes ou inconscientes, gravados em sua memória encarnatória...

Haja vista o grande número de mulheres queimadas porque simplesmente eram coerentes com sua forma de ver o mundo e viver a vida: ou seja, mortas foram porque simplesmente ERAM, sem predicativos...

Não precisavam dizer porque a beladona era anestésico, relaxante, calmante... Porque o boldo fazia bem ao fígado. Porque a citronela espantava mosquito. Apenas (e por tudo isso) sabiam e transmitiam o conhecimento para as gerações futuras, trazendo para o hoje e para a ciência boa parte das fórmulas "mágicas" de transformação da natureza.

Mais do que percepção, contudo, tenho aprendido que a intuição envolve sensibilidade, sentividade e, sobretudo, vivência de um estado pulsátil e vívido de atribuição quase automática, mas completa e densa, de significações em relação a fatos que aparentemente mostram-se "brutos" para a mente, mas que trazem a projeção de todo um "roteiro" de verdade - um script - com início, meio e fim. Trata-se de uma meta-história encoberta pela aparência do que se apresenta, nu e cru, como "real" aos olhos de precário alcance tridimensional.

Intueri, ou seja, ver por dentro, acena para o sentido de uma suspensão fenomenológica de predicativos e julgamentos racionais, articulando o que superficialmente se lança como proposta de verdade para - em "stand by" - deixar fluir a percepção a respeito do que se firma como veromíssil, aglutinando, nesse processo, cada um dos nossos poros, células e átomos (sencientes) que, em teia, acenam como sendo a essência do que se abre para nossa sensibilidade.

Segundo Jung, trata-se de uma das quatro funções psicológicas fundamentais (pensamento, sentimento, sensação e intuição), por meio da qual damos signficado tão rápido ao que se mostra no plano do "real" que se torna impossível separar o que é interpretação do que é dado, numa correlação súbita e abrupta que, muitas vezes, arrebata até mesmo fisicamente o indivíduo, por meio de um insight.

Poderia dizer que o insight confunde-se com o lampejo, a centelha arrebatadora que vem de relance, forte, implacável, enquanto a intuição se revela no estado de permanência da atribuição de significado. No primeiro, o súbito, a força que traz o "empurrão" de consciência magnânima, enquanto a segunda expressa-se na fluidez de um constante momento, que nos acompanha como uma "voz perpétua" de consciência.

Um processo intuitivo, por natureza, rompe o curso linear temporal, pois passado e futuro se encontram no hoje, saindo do inconsciente para o campo da informação consciente, numa espécie de sincronicidade não explicada pela lógica racional dualista de causa e efeito.

O indivíduo intuitivo sabe porque sabe: é o bastante para legitimar seu conhecimento e não necessitar de fundamentação para atribuir extrato de verdade ou validade ao que está dimensionando.

Meu percurso no Sagrado Feminino trouxe um disciplinado e austero (muitas vezes, dolorido)aprimoramento das potencialidades intuitivas, pois, progressivamente, o que eram apenas "sensação", inquietude e incômodo forem se lapidando em imagens nítidas, filmes cristalinos e cenas justapostas que, depois, revelaram-se repletas de verdade porque apenas se confirmaram no plano do tridimensional. Plasmava-se, enfim, no "real" o que estava imantado intuitivamente no campo do não visível.

Longe de fazer proselitismo ou propaganda de convencimento - até mesmo porque não tenho o menor interesse em ceifar "almas" e angariar séquitos de devotos e devotas, a internalização dos ciclos e a reverência aos meus trouxe, nessa trajetória, o esclarecimento com que, hoje, sigo meu caminho.

Sou eternamente grata ao Sagrado Feminino em mim porque, conhecendo-me profundamente, dia após dia, poderei atravessar a ponte para o Outro Mundo com a consciência tranquila de ter galgado, da melhor forma possível, as intempéries e os atropelos rumo à retirada das couraças de ignorância que insistimos em vestir e cuja reprodução é alimentada por um "inteligente" código simbólico que transforma as pessoas em autômatos a-críticos.

Por isso não vejo problema algum em me expor, contando detalhes da minha vida: é um serviço de UTILIDADE PÚBLICA que estou compartilhando com as mulheres empoderadas que, em algum dia de suas vidas, depararam-se com fortes intuições e, vulnerabilizadas pela insegurança e por seus parceiros, bem como pelo fanatismo religioso de cunho inquisitorial, sufocaram suas intuições e, aos poucos, minaram o elo com o conhecimento oracular.

Prosto-me devocionalmente na simplicidade de estar em paz com minha consciência para repartir isso tudo com as maravilhosas mulheres de Gaia, Anu, Danu, enfim. Ainda que aparentemente a alteridade me veja como "portadora" de"títulos" social e formalmente "importantes" para "legitimar" minha fala (mestre em direito, doutoranda em direito, advogada militante na violência doméstica, expectadora de situações de violência de gênero), é do lugar como MULHER conectada com o panteão de sua linhagem ancestral, representante de uma horda de mulheres galegas, fortes, plenas, firmes e dotadas de profunda sensibilidade e conhecimento milenar, enfim, BRUXA, que venho para dizer a todas o quão sublime é esse dom de intuição, cuja negação nos move em sentido de negação IDENTITÁRIA. À morte em vida.

A partir daí desejo dialogar com alguns episódios em minha vida...

Lembro de um muito interessante, que foi o divisor de águas da passagem dessa intuição meramente perceptiva para a visual. Certa vez (uma quarta-feira), um ex-namorado havia falado que iria viajar para Belo Horizonte a trabalho. Quando ele falou isso, senti uma pontada no cardíaco, bem como a sensação de ser a mais completa mentira o que ele estava falando, mesmo sendo convincente e sólido em sua exposição.

Afirmou que estaria de volta no domingo e, com isso, seguiu "viagem", enquanto a incômoda sensação no peito foi se transformando em pontadas lacerantes que, dia após dia - quinta, sexta, sábado - trouxeram uma forte pressão em minha caixa toráxica.

No domingo mencionado saí de casa para estudar na biblioteca da universidade e, enquanto dirigia, de súbito, comecei a ver - bem diante de mim, numa espécie de "tela" de cinema, o carro do ex-namorado naquela mesma via, sendo ocupado por ele e por uma mulher, ambos com cabelo molhado. Ela, uma morena bonita, de cabelo liso, comprido e escorrido; ele, feliz, conversando com ela e com a mão colocada em sua perna.

Sacudi a cabeça e a imagem se dissipou como poeira. A pontada no peito cedeu espaço à convicção de que, mais adiante, iria encontrar com ele no trajeto. Cinco minutos depois, a realidade esquadrinhou o que, a priori, havia visto em minha tela psíquica. Ultrapassei o carro dele e, com uma buzinada e um sorriso, desmascarei a fraude. Ele, claro, quase bateu o carro. Era o fim. Ponto. Não havia justificativa...

Em outro relacionamento, a mesma história bonita: dessa vez, um churrasco da empresa para os clientes, sendo "vedada" a participação de família e namoradas. No momento, lacerada no cardíaco (claro, o coração e o plexo são a via de impacto para o processo, no plano físico) e, com isso, a imagem na tela: ele numa cama com uma outra mulher e o celular ligando sozinho para minha casa. Dito e feito.

No dia mencionado apenas aguardei... Quando o meu celular tocou e mostrou no identificador o nome do cidadão, atendi, passando a ouvir todo o idílio amoroso entre os pombinhos. O celular "tocou" sozinho, como havia antevisto.

Já estava preparada porque, lá atrás, havia sentido, pressentido, visto e me acalmado, porque meu destino já estava certo e seguro. O Sagrado, mais uma vez, revelou para mim os desígnios mais profundos da alma de uma pessoa, o bastante para que, por mais que tentasse inventar alguma desculpa, eu, dentro de mim e de minha linha ancestral, saber que a verdade era bem outra.

Por que estou contando tantas histórias sobre intuição? Por que decidi compartilhar detalhes tão íntimos de minha vida (alguns aparentemente constrangedores)? Para refletirmos juntas e juntos sobre como o Sagrado Feminino é diuturnamente desrespeitado e vilipendiado por uma insistente falange de homens que desejam destruir essa conexão e se apropriar do conhecimento alheio, ao invés de desenvolver a potencialidade em relação a isso.

Não estou generalizando para afirmar que "os homens" são (todos) assim. Não.

O que pondero é, sobremaneira, a permanência de um modelo (dentre vários) de masculino que usurpa ou pretende usurpar, destruirm domar e conquistar o feminino sagrado. Não mede esforços para isso, indo buscar na deslegitimação do processo intuitivo a via de ingresso num processo de completa destruição do feminino.

Por isso, muitas vezes, o insight é tido como um "acesso de loucura", e a companheira (namorada, esposa, enfim) é uma "desequilibrada", já que é mais fácil desqualificar a intuição (e, por tabela, desqualificar a própria mulher em sua identidade e qualidades) a reconhecer que foi, de fato, desmascarado em sua tentativa de fraude... Esse é o combate que outrora postei como sendo a "luta indigna" e sem honra, por não ser olho no olho, mas, ao arrepio da retidão, ser travada pelas costas e com punhaladas traiçoeiras.

Num outro momento, em plena madrugada - por volta de três horas - acordei com a visão de um ex-namorado estar em sua camionete rumando com um turma para acampar em Pirinópolis. Tudo era muito nítido na cena, até o detalhe de terem tirado uma foto durante o percurso. Liguei para ele, que, claro, negou, dizendo que estava muito doente e iria ficar quietinho em casa. Falei sobre minha visão e ele disse para mim que estava "louca", que ele não estava viajando, que não iria acampar.

Meses depois (claro, neguei minha intuição e permaneci com ele no relacionamento), quando viajamos juntos (a turma, inclusive, que eu havia visto com ele no insight), ouvi uma voz dizendo para abrir o porta-luvas: foi quando encontrei a foto que foi tirada no dia em que tive a visão. Daí, desmascarado, ele não teve saída que não confirmar a história que eu já sabia.

Essas são pequenas histórias que mostram como a intuição é importante para o autoconhecimento. Não podemos deixar que nada ou ninguém nos separe do que é vital para a existência harmônica com o Universo: a sabedoria primitiva que nos motiva a saber, antes de todo o mundo, quais as possibilidades que irão se concretizar no plano do material...Sem isso, creio, não poderemos dar saltos de crescimento...
Apenas lamento pelos homens que ainda acham que podem enganar uma mulher assim... Enganam-se a si e, no autoengano, sucumbem, como um elo frágil de uma cadeia rota de incongruências, diante da vida. Não se desenvolvem e, não o fazendo, morrem com a sensação vã de "como teria sido se não fosse"... Se existe, enfim algum sentido de compaixão diante disso, é pela empatia diante da dor pelo estado visceral de limbo perpétuo a que se sujeita uma alma que teme crescer...

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