domingo, 28 de novembro de 2010

A Lua, o Mar e o banquete que nunca finda...

Numa noite plácida em um reino bem distante do mundo que, há tempos, deixara de acreditar na magia, a cintilante Lua deitou-se com o Mar. Seus corpos, em atropelo, emaranhavam-se num frenesi que se estendia na melodia lírica do compasso de espera pela saciedade que titubeia diante de um farto banquete, enquanto a fome, por outro lado, rodeava um intrépido andarilho que ali se lançava, rumo à alvorada de mais um dia cujo deslinde lhe era totalmente desconhecido...

Acarinhada pelo veludo a transbordar, em mãos, das ondas de seu consorte, a Lua, sonolenta, veio cochilar na praia, velando o sono de seu imortal amado que, dali a poucos momentos, acordaria para mais uma lânguida revoada de sublime amor.

Enquanto aguardava o farfalhar da maré cheia a se lançar nas folhas de palmeira caídas à margem, não pôde a Lua deixar de perceber os passos largos e ansiosos do andarilho errante que, afoito, olhava de um lado para outro, buscando, a todo custo, encontrar algo que pudesse afastar a escassez de sua tribo.

Espiando entre as conchas que ornavam seus aposentos, a bela Lua sentia em seu peito o ecoar descompassado do coração do homem... No arroubo de sua intempérie, ele tentou, sem êxito, haurir do Mar o doce provento para levar para sua tribo faminta, mas como o Senhor das Profundezas estava em profundo sono, tudo, ali, parou: peixes, sereias e golfinhos, sempre silenciosos e solidários ao Rei em seu repouso sagrado.

Vendo as lágrimas descendo do rosto cansado do nobre homem, a bela amante não se conteve: olhou, ao longe, seu amado e, vendo que ele não poderia acordar tão cedo, compadeceu-se do amor profundo do guerreiro errante por sua tribo e, diante dele, fez reluzir, descido dos céus em uma cortina de prata, um grandioso peixe grená, cujas órbitas ostentavam rubis apenas ofuscados pelos raios de alegria que brotavam da Lua compadecida.

O bravo andarilho, olhando a cena, não acreditou no que vira, pois diante de um mar infecundo a encerrar inglórias, não imaginou que algo assim poderia acontecer. Lembrou-se de sua casa ancestral, vendo no horizonte o rosto estampado de cada um de seus irmãos, cuja existência, até ali, não era mais tão certa diante da fome.

Foi quando, de súbito, resignou-se diante da Lua compreendendo a magia antiga que estava sendo feita ali.

Empunhando sua adaga e cortando o ventre da oferenda, o errante guerreiro viu sair de lá outro peixe, cujo ventre, por sua vez, pulsava na consonância do coração do nobre. Abriu-lhe as entranhas e, com isso, viu sair outro peixe, e mais outro, outro. Dali a pouco, cestos e cestos não seriam o bastante para carregar tantos peixes que brotavam incessantemente uns dos outros.

Agradecido pelo dadivoso presente da Lua, o homem ajoelhou-se no veludo da areia, acariciou as entranhas da Terra e elevou sua alma aos céus, cantando para a formosa Rainha que, ouvindo atentamente a música entoada, derramou, em prantos, múltiplos diamantes coloridos... Foi então que, ali, a Lua, sentiu, mais uma vez, o Mar carinhoso a lhe abraçar, lembrando-lhe que em poucos momentos seria Ela a se sentir saciada...

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