quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Tradição, tradicionalismo, exposição e anonimato: as dualidades que se compõem na unidade em torno de uma verdade, que VERDADE?

Hoje acordei reflexiva, pensando no que significa o polêmico tema relacionado à exposição versus anonimato na Arte e nos mistérios ancestrais, mas, como sempre, cada vez que me deparo com polaridades, procuro pensar "para além"delas e, a partir delas, vejo-me sempre na fragmentariedade de conceitos, tradições, temas, categorais.

"Acordo"em meio a uma seletividade que, por sua vez, apenas dá vazão aos fundamentalismos incompatíveis com a fluidez que a diversidade nos apresenta. Por isso - e, sendo bem honesta comigo e com quem dedica seu tempo lendo o que posto - decidi compartilhar a questão, a partir do lugar de fala já conhecido: a experienciação na Arte, não como algo a ser atingido, mas um ethos em que já me encontro, como resultado de um trilhar que se inicia com minha família e a herança dela haurida.

Viver a Arte representa, para mim, uma senda, um delongado, destilado e delicioso caminho que se desenvolve num continuum para além do tempo e do espaço, e não um mero "despertar mágico" ou um "surto consciencial" em que se descobre, a partir de uma ida ao supermercado místico, mágico, exo-eso/térico (os diagon alleys da vida de consumo que, ao final, é a mesma do paradigma que tentamos deslegitimar).

Não é adquirindo um bando de artefato ou se colocando um pentagrama no pescoço que, de repente, num lampejo idiossincrático, descobrimos identidade bastante para dizer por aí "ufa, tenho pentagrama, cultuo deidades, manipulo ervas, sou bruxo(a)!!!", sentindo-nos empoderado(a) bastante para, de maneira leviana e superficial, começar a fazer "traquinagem" que, muitas vezes, só não nos coloam em risco porque existe uma invisível teia de proteção aos ingênuos...

Dentro disso, herança ou legado na Arte não é assunto de talk show. Pode ser? Pode. Assim como pode não ser. Não existe regra. Existe conteúdo, legado, hereditariedade. Que é é... não precisa evocar nada ou "se fazer aparecer". O aparecimento esporádico advém naturalmente, como resultado do diálogo com outras experiências, a fim de partilhar, e não destruir.

É a grande virtude da terra: calar-se.

Outro ponto em que estou pensando tem conexão ao que seriam realmente "herança" e a exposição do legado.

Penso que o fato de expor em rede detalhes de parte de uma vivência não desqualifica ninguém como bruxo ou bruxa, desde que estejam ali presentes elementos básicos reveladores da tradição. Quais são? Sei lá, cada canto desse grande mundo antigo traz em si segredos, às vezes, tão desconhecidos do senso comum que fazem sentido apenas para a família que os guardou. Eis a temática da Arte em família: o sentido das práticas apenas se relaciona com o que os ancestrais evocam e compartilham...

Cada casa ancestral sabe o que e como revelar.

Daí surge uma outra reflexão: em relação aos sites, às listas e aos livros, penso, ainda, que não são critérios fidedignos de exclusão ou inclusão na bruxaria pelo fato de serem postados, publicados etc.

É o conteúdo, e não o continente, o substrato, e não a roupagem, que denotam a raiz de alguém, como resultado do processo gradual de transmissão de conhecimento.

Isso me faz lembrar do que posto aqui no blog e que evoca a série de impactos além da minha ciência usual de achar que escrevo para que me é afim...

O que posto aqui, por uma questão bem óbvia, não esgota ou encerra a riqueza do que sou enquanto pessoa, muito menos exaure o que faço em minha casa, como resultado do que aprendi com minha mãe. A isso denomino anonimato dentro da exposição contida: a herança que entendo ser realmente válida, o que não está explícito ou revelado, porque diz respeito ao que cada um traz de sua ancestralidade.

Cheguei a comentar que hesitei muito em começar a me expor, mesmo quando, dentro de mim, desde sempre, jazia pulsante o legado na Arte. Por que decidi? Por uma questão de utilidade pública, não para me posicionar em termos de potestade, e sim para dialogar com a diversidade.

Ou, ainda, para desmitificar o charlatanismo de plantão, que, quase sempre, barganha com as crenças antigas, manipulando as pessoas sob o pretexto de usar a Arte para a obtenção de dádivas, como se fosse muito simples juntar mandrágora e sangue de dragão para se proteger de alguém. Minha herança e o legado que recebi estão muito mais nas postagens sobre a bem-aventurança e sobre a Natureza do que em "receitas" e "bruxedos" retirados de revistinhas.

A vivência ancestral confunde-se com o próprio caminho, e não com um momento circense em que uma bonita vestimenta é retirada do armário para celebração de algum plenilúnio. Quando essa "transcendência" é reafirmada, estamos apenas reproduzindo a mesma dualidade que, ao final, não existe na bruxaria, dada a conexão intrínseca com a Natureza e seus segredos. Que diferença reside entre isso e toda a liturgia cristã que as pessoas "entendidas" na Arte sempre apregoam? Nenhuma, pois a dualidade está presente todas as vezes em que precisamos sair do espaço comum de "realidade" para acessar egrégoras entre-mundos.

É no aqui e no agora que se processa o além-aqui-e-agora.

Quando a exposição, por sua vez, adquire a feição de proselitismo, então, é mais tormentosa a questão. Proselitismo, ao meu ver, é incompatível com a bruxaria, mas, mesmo que muitas tradições jurem não estar fazendo apologia a ele, a bem da verdade, o condicionamento "rebanhão" em torno de dogmas acaba fazendo esse papel.

O proselitismo, penso, parece uma espécie de negação da Arte, porque, sendo o conhecimento algo que se irradia nas casas ancestrais, o "rebanhão" fugiria completamente do propósito de mantença da tradição.

Gosto muito de antropologicamente dialogar, nesse aspecto, com a perspectiva de similitude desse fenômeno com a proposta proselitista dos movimentos religiosos de cunho cristão, pois realizam o mesmo foco: agregar pessoas para estabelecimento institucional de poder e política.

É na clareira de uma floresta, na quietude de um chalé, que meus bruxedos se concretizam. Na rima contida neles, ensinada, de geração em geração, que tudo se perfaz.

Foi isso que aprendi, mas, claro, isso não é O dogma da bruxaria, numa tentativa de universalizar práticas. Penso ser o espaço situado em que me encontro, diante do caminho que tracei até aqui em 37 anos. Quando se realmente sabe de si, não há motivo para se minar a alteridade. Portanto, vivamos em diversidade, cada qual, segundo seu legado, não é mesmo?

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