domingo, 17 de outubro de 2010

Conflituosidades e espelhos truncados

Às vezes é preciso muito pouco para despertar a fúria de um ser humano...para uns, apenas existir e ser, o bastante para que a angústia existencial no afã destrutivo volte-se para o propósito de aniquilar, perturbar, ou, quem sabe, firmar-se na vida em detrimento do Outro.

A bruxaria e o Sagrado Feminino não estão imunes à discriminação e ao etnocentrismo, à pretensão e à arrogância dos que desejam se estabelecer desqualificando o trabalho do outro.

Quando comecei a colocar no papel meus relatos de vida, a partir da experienciação do Sagrado Feminino nas celebrações de rodas da Lua Cheia, dos estudos de mitologia celta, do doutorado nas leituras de gênero, feminismo e violência doméstica, bem como na prática como advogada atuante em defesa de mulheres vítimas de violência doméstica, percebi o quão árdua seria a tarefa de compartilhar experiência com quem, quiçá, poderia sequer se predispor a entender ou respeitar minha vivência.

Afinal, não agradamos a todos - ainda bem - e, dentro disso, conflitos e divergências são resultados naturais da dissonância e diversidade. O que desperta bastante minha atenção, por agora, é a maneira pela qual as opiniões são manifestadas quando o assunto diz respeito - aparenta ser - à busca incessante de "linhagens" e "bruxos puro-sangue", como se a vida realmente fosse um filme do Harry Potter, no qual os Malfoy não se cansam de dizer que Hermione é "trouxa" e "sangue ruim".

O que significa isso, afinal? Estamos de volta às galés da Inquisição? O que é isso, afinal? Irmãos e irmãs na Arte maltratando-se e se desrespeitando? A pretexto de que? Para que? A quem satisfaz isso? Alguém sai feliz? Duvido também...

Pior, estamos nos queimando nas fogueiras construídas sob o fogo de nossa vaidade, atacando-nos uns aos outros, agredindo-nos e, ao contrário, desunindo-nos a partir de mera exposição de egos e dogmas. O viver na Arte seria, por acaso, um concurso, para aferir o que fazer com uma poção de mandrágora? Duvido muito.

Essa semana a bola da vez foi a truculência. O que é pior, a truculência superficial, leviana e irresponsável vindas por partes de quem, por certo, pelo tom voraz do desrespeito, julga-se "além do bem e do mal", por sobre a mortandade e, dentro disso, define o que é certo e errado na bruxaria.

Num campo onde nunca antes pensei existir tamanha falta de respeito, percebi que, ao contrário, os jovens não respeitam mais os antigos e as fátrias entram em guerra com os clãs distintos...Nunca imaginei que haveria de explicar questões tão básicas, lembrando não existir um foco celta, mas, antes, vários focos, representando vários troncos familiares.

Ou, então, lembrar que os celtas mantinham a diversidade política, não se unificando em termos de governo e chefia de clã. Ou, muito menos, que nem toda expressão étnica da Espanha é ibérica, por conta das correntes migratórias vindas de outros pontos, a exemplo dos milesianos, mouros, castelhanos, galegos, catalães e bascos.

Um absurdo...

Não poderia ficar calada diante disso...

Sou muito incisiva com as palavras, faladas ou escritas, pois elas refletem a maneira reativa com que entendo, em algumas vezes, ser necessário para sobrestar a agressão, sobretudo de quem ignora (e, com isso, é ignorante). Dentro da bruxaria não existe temática de ofertamento de outra face, não. Isso é o paradigma cristão, que se irradiou no recalque do ódio, para, encobrindo-o com a pseudo libertação, lançá-lo no "quarto escuro" de nosso inconsciente. Basta aperta um botão para vir à tona a irascibilidade.

Muito menos lei trina existe aqui...

Se recebo uma porrada, não tenho justificativa moral alguma para dar amor, pois não sou obrigada a abrir o peito e aguardar o oponente enfiar a adaga. Trata-se de legítima defesa diante da agressão verbal e, com isso, que seja feito um embate honesto, sincero e, sobretudo, olho no olho. Dou amor? Sim, sempre, mas, diante da inevitável batalha - ainda mais feita na desonra - a ordem é a luta justa (mesmo que primeiramente seja feita no chafurdar da lama de ignonimias).

Esse blog, bem com meu círculo familiar, amigos e amigas, é sagrado porque contém um local de descanso para peregrinos e peregrinas de almas, que aqui chegam e descansam a cabeça, depois de suas batalhas. Não tenho a menor intenção de fazer proselitismo em relação à vivência na bruxaria, na Arte, na alquimia e na química, porque cada um e uma tem seu caminho, forjado a duras penas. Não se barganha espiritualidade e, dentro disso, não se tripudia do que não se conhece.

Não há parâmetros para se afirmar sobre validade ou invalidade de práticas e vivências. Além disso, para mim, ser um binário sem sentido (validar/invalidar), ainda reflete uma pobreza franciscana de se ver o mundo - e a si mesmo - dentro de uma dinâmica de mundo e Universo que não se processa na liturgia do 0/1, ou do certo e errado.

Na Natureza não existe - penso - erro e acerto, moral e imoral. Quando isso acontece, sem querer (ou, talvez, até querendo), na dualidade, passamos a fazer apologia de nós mesmos, desqualificando o outro e o desrespeitando no que existe de mais sagrado dento de si. Ao menos é essa é a minha vivência, onde experiência e filosofia (se é que existe alguma) compõem a sabedoria de conviver respeitosamente na diversidade.

É na simplicidade que a vida se processa...

E no respeito também!

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