quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A lei trina e a ação e reação na bruxaria

Em minhas andanças por aí sempre escuto a invocação da lei trina, segundo a qual desejamos a outra pessoa sempre o triplo do que nos deseja. Também chamada de Lei Tríplice, pode ser compreendida como uma espécie de Lei do Retorno aplicada três vezes - em nível causal - para cada ação ou pensamento direcionados de uma pessoa a outra.

Já li e escutei de tudo.

Que o número de forças do Universo é trino, que o desejo de triplicidade diz respeito ao triskle, o ciclo de espiral cósmica de renascimento. Que a três são as faces da Deusa criadora que, com sua força, envia poder de ação e reação triplicado. Ou, ainda, já ouvi que a lei é tríplice "porque é", numa míope percepção que apenas se reveste de dogmatismo, como se a vida, em si, bem como o Universo, seguisse algum dogma, ainda mais revelado por nós, humanidade. São, enfim, percepções que mostram o quanto somos criativas em nossas crenças.

Acho importante, porém - deixando a brincadeira um pouco de lado - compreender e situar espaço ocupado pela lei trina como dogma apenas da expressão religiosa e prática de wicca, que se distingue, em muitos aspectos, da bruxaria.

Não sou expert em liturgia e religiosidade wiccana (ou wiccaniana), mas, dentro do que me proponho a fazer em termos de bruxaria (como prática, arte e conhecimento hermético familiar), pretendo, por contraste, articular algumas diferenças a partir da minha percepção.

De antemão, não concordo com as denominações "bruxaria tradicional" ou "bruxaria familiar", apesar de usar essas categoria para apresentar e diferenciar meu lugar de fala a partir do panteão da minha linhagem ancestral, como "marcação de território" dentro de tantas linhagens e tradições.

Daí entendo existirem muitos "troncos" de bruxaria, cerimonial, tradicional, familiar etc. que, na miscelânea a-crítica, podem dar a falsa sensação de pertencimento a uma religião específica, ou, ainda, confundirem- se com a wicca. Essa distinção, contudo, não traz o propósito de denegrir ou criticar a wicca, pois respeito a diversidade religiosa - que é até preceito constitucional - bem como o maravilhoso trabalho de estabelecimento institucional da wicca no Brasil.

Situo, ainda, com respeito, o trabalho wiccano como resultado de um movimento maior de restauração do Sagrado Feminino, bem como da movimentação das primeiras ecofeministas, a exemplo de Starhawk no famoso A dança cósmica das feiticeiras, obra de importante respaldo aos movimentos feministas de cunho religioso da década de 70.

Mas o argumento que pondero diz respeito à prática ancestral não constituir religião em termos institucionais, mas, antes, concentrando em sua essência a tradição do conhecimento transmitido geracionalmente, ou seja, transmitido de mãe para filha, sobretudo nos locais de cultos antigos em que o conhecimento herbal e hermético da transformação do real permaneceu intacto (Dinamarca, Irlanda, Inglaterra, Escócia, País de Gales, Gália, Espanha, Portugal e Itália).
Religião, no sentido de (re)conexão, pressupõe distanciamento da Natureza (Physys), de modo que, pela liturgia consensuada e transmitida pela ancestralidade sacerdotal é feito o vínculo, não sem que o praticante se vincule e adira ao dogma.

Importante dialogar, aqui, com a clássica distinção entre sagrado e profano, assunto bastante corriqueiro na literatura antropológica, principalmente a partir da articulação feita por Émile Durkheim, pois entendo que, a partir daí, equivocadas compreensões foram lançadas a respeito da vivência na seara da bruxaria.

Segundo ele, sagrado e profano “são gêneros opostos" (2000, p. 19), que refletem mundos distintos, numa dicotomia que marca a incomunicabilidade entre os assuntos ligados, de um lado, à religião, magia, bem como aos mitos e às crenças, virtudes e, de outro - campo do profano - ao que não está inserido nesse mundo extra+ordinário e metafísico.

Mais adiante, para ele, fenômenos que são tratados como fatos "naturais", biológicos e "normais" Quando o processo é tratado como um fato natural, biológico, normal, estamos no campo do profano, de tudo aquilo que não é sagrado.

Numa percepção consensualmente tida como pagã (que não incorpora o sagrado - no sentido de extra+ordinário ou transcendente) a bruxaria não seria religião, mas prática profana, situada no aqui e no agora. Isso porque, não tendo havido rompimento de vínculo com a Physys (Natureza), não existiria a necessidade de estabelecimento de ligação, conexão, elo ou vínculo algum. Dentro disso, liturgias são desnecessárias, bem como os dogmas questionados.

Uau! Como assim? A bruxaria, dentro disso, não seria "sagrada"? Ou, ainda, não atuaria no sentido de modificar realidade?

Simples.

Muito simples, bastando lembrar que Durkheim analisou ritos a partir de uma visão dualista de conhecimento, que separa humano e Natureza, típico do movimento que a ciência tomou no século XIX. Nunca é demais lembrar que o dualismo começou a integrar a maneira de pensar e fazer ciência, bem como, mais profundamente, marcou a separação entre ciência, filosofia e religião, desde a embrionária cisão sofística na Grécia.

Dentro disso, a ciência passou a catalogar e segregar observador e objeto, tendendo, com isso, para segregações do mundo, da vida e, sobretudo, do humano e suas práticas. Estando, portanto, dentro de um modelo dual, religião é assunto relacionado ao que se convencionou chamar de sagrado apenas porque se relaciona com o domínio do que é incompreensível para a mente racional em termos de causa e efeito.

Daí o sentido de conexão outrora perdida. O profano, por seu lado, residiria no campo do conhecido e visível em termos causais, o imanente, em contraponto à transcendência religiosa, que nos transpõe de um mundo material para a sutileza do etéreo.

Com isso, receio, toda a compreensão de culto à Grande Gaia, Anu, Danu, Mater etc. como tentativa de "religação" apenas reproduziria a dicotomia que apartou a humanidade de um Todo muito mais amplo, mais especificamente em relação à Natureza. Dentro disso não concebo ou vivencio a bruxaria como religião, mas, antes, como prática de vida, modus vivendi.

Mas, quando se observa outras perspectivas, mudando-se o paradigma cartesiano para uma dimensão holista de mundo - sem fronteiras entre "observador e objeto", não faz mais qualquer sentido a apartação de galerias.

A bem da verdade, a "descoberta" da física sub-atômica, mais precisamente a física quântica vem sedimentar o caminho da superação de divisões entre religião e ciência, por meio da reinvenção de novas concepções, que demandam, de um lado, a ciência se reinventar no holismo e, de outro, a religião não mais pretender religar o que já está ligado. Eis oa arautos do Milênio de crise endêmica nas religiões...

Por que, então, manter a dualidade?

Bom, diante disso, enfim, como observar a lei da ação e reação?

Na bruxaria não existe lei trina ou tríplice, porque o Universo - material e etéreo - é composto de uma só substância, energia, que se comporta em regime de coexistência de "possibilidades quânticas", partículas (matéria) e onda (etéreo).

Esses estados quânticos por sua vez, revelam a paridade de forças presentes no Universo, pois, grosso modo, se o número de forças do Universo fosse trino - e não dual - haveria desequilíbrio suficiente para implodir o caos, mais precisamente, a entropia (medida do grau de agitação atômica e desagregação). Tudo bem que ainda estamos falando de dualidade até mesmo porque nossa formação cartesiana de separação entre mente e corpo ainda é forte, mas lembro que, na física quântica, essa "dualidade", na verdade, é perspectiva, e não realidade.

Ou seja, não existiria nada além de puro caos, o parece contrariar a existência factível e visível de não-caos.

Eis a razão pela qual entendo que a perspectiva da Lei Trina encontra-se muito equivocada, além de não fazer parte da temática "bruxesca". Ela pode, quando muito, ser um refoço mítico de simbolismo em relação à cosmogonia celta, mas que nada tem a ver com energia e força triplicada, e sim aspectos no ciclo de vida-morte-vida, ou seja, de processos naturais de nascimento, crescimento e morte.

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