terça-feira, 7 de setembro de 2010

As bruxas de Eastwick

Em uma das cenas do filme As bruxas de Eastwick, a personagem de Jack Nicholson - Daryl Van Horne (adivinhem o anagrama) fala para Alexandra (Cher) sobre o casamento e a sociedade machista, na qual o homem sempre utilizou a mulher para "auferir vantagens para si próprio".

"Uma vantagem para o homem", diz ele, e "para a mulher, a morte" porque, aos poucos, a fagulha interna da criação, o poder inato da criação, esvai-se diante da progressiva opressão do patriarcado. Aos poucos, então, para o Daryl, a mulher em seu poder criativo morre, o homem percebe e, com isso, dali adiante, olha para o que sobrou e percebe que está casado com um cadáver, "um cadáver que ele mesmo ajudou a matar". Genial!

Eis a armadilha do patriarcado na desqualificação progressiva da mulher outrora empoderada que, pouco a pouco, transforma-se em um farrapo humano, "colérica" e "histérica", atributos que seriam inatos à posição que ocupa na escala da evolução (nessa escala misógina, a da "inferioridade", por certo, não é mesmo? Afinal, nossos homens "racionais" usam o cérebro, enquanto a nós cabe o domínio da emoção - clichê)

Depois dessa tirada de "tirar o fôlego", ele prossegue, dando uma preleção para Susan Sarandon, ao comentar a caça às bruxas como sendo um mecanismo de "reserva de mercado", já que bem sabemos que boa parte das "bruxas" eram, de fato, parteiras e exímias conhecedoras dos segredos das ervas e da Natureza. A medicina, portanto, não poderia competir com a ancestralidade. Queimemos as bruxas, então!

Não quero aqui fazer apologia contrária a casamento, muito menos desejo firmar ou reafirmar o conúbio, mas, antes, ponderar sobre o que significa uma união baseada na percepção de igualdade. Para os celtas, o casamento era renovado anualmente, cabendo ao homem ou à mulher, de maneira equânime, finalizá-lo depois desta data, se não estivessem satisfeitos em suas pretensões.

Depois de um ano, os nubentes prostravam-se diante da comunidade e, revelando seus votos - de ruptura ou renovação - decidiam o destino do enlace, motivados pelo que significava para esse povo a noção de COMO UMA UNIDADE = comunidade. O casamento, bem como toda a estrutura clânica, não se voltavam para a satisfação pessoal, mas, antes, para o sentido de solidariedade que, depois de certo tempo, é conclamada para ungir - ou não - o casal que se enamorou em Beltane.

Até hoje em certas comunidades a cerimônia é seguida do enlace ritual - com o uso de uma fita em torno das mãos justapostas dos enamorados - para que ali seja firmado o contratctus entre homem e mulher. E, depois de um ano, os noivos voltam para o coven, ou até mesmo para a família, para dizerem sim, ininterruptamente, ano após ano. Essa é a sabedoria ancestral que conclamo para explicar minha percepção de um enlace matrimonial.

Ontem postei sobre as intervenções cirúrgicas pré-nupciais...Hoje posto sobre outro tipo de plástica: aquela invisível, que pretende deformar nossos corpos etéreos e sutis, demarcando áreas de "conquista", como se fôssemos territórios de domínio masculino. Sob tal perspectiva, bem difícil que eu, algum dia, case... Não quero "ser conquistada" como a Gália foi por Júlio César...

E, o que resta, então?

Cair na real...

Em uma entrevista, um repórter perguntou para Janis Joplin porque ela, até então nunca havia se casado. Ela respondeu com uma bem-humorada metáfora...

Para ela, nós, mulheres, empunhamos - usando um anzol e uma vara - na frente de um jumento empacado uma linda cenoura, motivando-o a ir atrás dela, sempre, sempre, sem a perspectiva, contudo, de pegá-la (claro, pois, se comê-la, nada garante que o jumento, depois, ande).

Somos o condutor e os homens machistas, o jumento. Daí a tirada de Janis: nós sempre sabemos que não podemos cobrar do jumento que ande, e, dentro disso, sempre vivemos a ilusão de empunhar uma cenoura, enganando-nos o tempo inteiro cobrando dos machistas o que eles nunca, nunca, poderão nos dar...

Perfeito!

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