quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Do ar ao ar, quando a amoreira floresce...

Acordando com o céu límpido fui visitar a amoreira que trouxe para cá, ainda bebê, na esperança de, algum dia, poder me deliciar com uma frutinha bem doce gentilmente doada por ela, que nada pede em troca.

Desde quando aportei nessas terras decidi plantar, para deixar a raiz de minha passagem por esse planeta como herança para os que necessitarem de um doce pedaço de fruta para saciar a fome - qualquer que seja ela - espiritual, material e emocional.

Envolvi-me com o solo e nele deixei uma amoreira, uma bananeira, um mamoeiro, boldo, alecrim, manjericão, hortelã. Um jardim de ervas todo em flor, removendo pedras, alisando a terra e fecundando o solo com amor... São esses pequenos gestos que agregam a conexão a um mundo de pura luminosidade e magia. Eis aí a revelação da Deusa em sua face de plenitude, morada da semente que irá se transformar, adiante, no consorte-filho com que a criação estará perfeita...

De início a floração da amoreira veio tímida, pois as primeiras frutas eram bem azedas e escassas em quantidade. Com a mente inquieta, logo pensei que "algo estava errado", que havia plantado no lugar errado, ou na lua errada. Tudo inspirava erro a justificar a razão pela qual minha amiga amoreira não havia "turbinado" seus galhos com a promessa do maná.

A surpresa hoje, logo cedo, veio nos galhos repletos de flores, trazendo-me uma compreensão ímpar do que significa paciência e respeito ao momento de cada um. Momento dos homens, das plantas, dos demais animais.

Momentos...

A sabedoria de aguardar o momento em que floresce um bom sentimento, uma invulgar amizade, um despretensioso amor.

O que nos diz respeito enquanto humanidade gira em torno da despretensão, tal qual a amoreira que, quando menos esperava, deu-me de presente tufos e tufos de amoras, para comer, fazer compotas ou doces.

A Árvore da Vida traz em si o ciclo completo, pois a latência é semeada pelo igualitarismo do vento, que transporta as sementes em companhia dos pássaros.

A germinação é acalentada pela Grande Mãe nutridora, Terra, que abraça a semente e, com seu útero quente e úmido, serve de morada para o desenvolvimento do ser.

A água fornece o sangue vital, repleta de nutrientes, doando-se incondicionalmente e, em meio a tanta riquiza, por ser o líquido universal, ainda envolve a planta com invulgar sensibilidade, comum aos seres de água, incompreensível aos que não sibilam na frequência diáfana da água cristalina.

O calor do elemento das salamandras sagradas compõe o afago da Terra, ao mesmo tempo em que reside no Sol, nas alturas de um mundo novo, que se renova, a cada dia, com o despontar de um astro-rei que nasce e morre, lembrando da impermanência nesse plano e da necessidade de cultivarmos - cada um ou uma de nós - as sementes que recebemos da Deusa.
Querem saber de magia? De bruxaria? Simples, deixem o caldeirão de artificialidades de lado e escutem mais o som da Natureza batendo nas folhas das amoreiras que plantarem.
Caldeirão, athame, sino, tudo isso não tem o menor significado sem a conexão com a Deusa, por meio da compreensão da realidade que nos envolve.
Não a realidade de concreto armado, mármore extorquido ou shopping center, mas a realidade de um pé na terra, água na cabeça, pimenta, cheiros e gostos.
Bruxaria é necessidade do coração despojado do ego de auto-realização, acrescida da emoção para alimentar o desejo e o conhecimento ancestral para invocar as egrégoras que vibram na exata medida de nossa frequência.
O ar, dentro disso, esperge o conhecimento, a água, em torrente, ousa.
O fogo, espírito que alimento, é a volição e a terra, ah, a terra. Ela silencia, cala, porque, para germinar uma semente, faz-se necessário o silêncio...


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