domingo, 15 de novembro de 2009

A descoberta da Deusa no paradigma ecofeminista


Hoje acordei no ápice da reflexão sobre meu papel dentro de um modelo institucionalizado de academia cujos métodos me aborrecem a cada dia. Estava pensando na razão pela qual a rotina de reprodução - ainda que escondida no discurso de "crítica" - está sempre espreitando meus atos, beirando as aulas que dou e se inoculando nos filetes de hemácias que transitam, noite e dia, em meu sangue.
Falta-me fôlego e, sinceramente, acho que está começando a faltar o ar que respiro. "All I need is the air that I breath to love you" - penso em relação à ciência, porque, a cada livro que folheio, e em cada texto sobre o qual me debruço - não raro, em lágrimas - tenho a franca sensação que o conteúdo está tão fora da realidade, tão sacral e transcendentalmente disposto como uma fórmula mágica, que se torna impossível dizer que faz parte da minha vivência. E duvido que, ao final, possa fazer parte da vivência de alguém que persiga unidade e coerência.
As conversas com amigos, amigas e colegas não me animam, porque, ao final, por mais que se esteja querendo chegar a algum lugar de questionamento, o discurso esbarra num problema estrutural: nosso paradigma científico ainda se crava, finca - em desespero, é bem verdade - numa compreensão de mundo mecanicista e reducionista, que enxerga o mundo como um rato de laboratório e nós, maravilhosos seres, como cientistas que se colocam fora do "objeto de análise". Somente não saberia dizer qual o locus de onde iríamos fazer a observação, já que estamos imersos no ambiente que definimos como sendo o laboratório.
Acho que o locus seria nosso umbigo etnocêntrico e separatista, firmado na ignorância de uma concepção de apartheid com a Natureza (Physis), que precisa ser "conhecida para ser dominada", no sentido de, reificada, apenas render bons frutos ao consumo de massa, numa concepção puritana de acesso ao usufruto expropriatório que está destruindo tudo ao nosso redor. O consumismo industrial na lógica nefasta do capitalismo de drenagem da Natureza: a marca da pós-modernidade globalizante, que irradia ao mundo a concepção de um localismo central (países centrais, G8, G9 e tantos Gs por aí), que, a pretexto de libertar o mundo da ignorância, mergulha, ainda mais, na escuridão do completo desrespeito ao outro.
Sim, o outro é apenas "excêntrico", "primitivo" e, dentro disso, não compreendido em suas especificidades. O outro é o doce e suave objeto de debruçamento para, ao final, do alto de nossas torres de marfim polido - de uma pretensa cientificidade de esquina - apenas nos colocarmos como o mais sofisticado modelo (ocidental, romano-germânico, capitalista, pós-qualquer-coisa), a contramão de toda a compreensão sobre a dimensão de respeito ao que nos é diferente.
De tantas leituras feministas, nada, sinceramente, agradou minha necessidade de encontrar a Deusa na arquetipização da ciência. Nada favoreceu a busca pela superação da fragmentariedade desse modelo bipolar que, sinceramente, faz com que eu me veja, a cada dia, no espelho, como um protótipo de "O médico e o monstro", perdida em meio da contradição inerente à falta de harmonização entre mente e corpo, bem como à tentativa de confrontação de igualdades com diferenças que se marcam e lançam como simples...diversidade.
Um raio de luz surge, enfim, ligando a compreensão de vida, experiência, alteridade, mundo e autoconhecimento, na medida em que faça o caminho de volta à Física. Por muitas vezes fui pega - não de surpresa - sendo indagada em relação à aparente contradição e fatal abismo entre direito e física. "Nossa, que diferente!" - ouvi, por muitas vezes, sem saber que, hoje, ao final de tanto atropelo, consegui, por fim, a calmaria da alma, na paz interna que me move a afirmar que o abismo é apenas a falta de compreensão das dimensões de um novo paradigma científico, a partir do redimensionamento do que se entende por ciência e, dentro disso, da superação de outrora intransponíveis cisões entre mente e corpo, ciências humanas e naturais, bem e mal etc.
Um sopro de alento! Eis que surgiu, imerso no retorno para o lar de deidade. Como não pensei nisso, diante de tantos atropelos? Os atropelos da saída de um mundo dual, para o berço eterno de unidade. Voltar para o braço amoroso (e forte) da deusa dos antepassados. A Deusa ressurgiu, firme e forte, poderosa e plena, no resgate a um feminismo deídico, no qual movimentos da década de 70 começaram a indagar o modelo de produção, de economia e, dentro disso, de academia. Daí minha crítica veemente ao feminismo de reação extirpatória, que almeja a alocação para um espaço de poder (econômico, cultural, moral e religioso) que reproduz a lógica de submissão da Natureza, com a dominação, em vários níveis (principalmente na apropriação do discurso) do corpo sutil do sagrado e do feminino.
A cientificidade ocidental e o patriarcado andam de mãos dados e, sem saber (será?), boa parte da literatura feminista reproduz uma compreensão de manutenção de relações desiguais e hierárquicas em face da Natureza e, dentro dela, dimensionadas para as relações humanas, que se irradiam em um puro materialismo extirpador, já que, de fato, a nova alocação das mulheres se dá para um domínio público, que adveio também de uma dualidade (público e provado) de reflete o modelo ocidental da sociedade industrial que se teorizou para legitimar o extermínio da Natureza.
O sopro de vida da Deusa encarcerada e submissa volta, já em Starhawk (década de 70) e encontra em Vandana Shiva aporte teórico em relação a uma proposta de retomada de discussão do espaço que a Natureza (Physis) ocupa da agenda humana, não mais como simples objeto de dissecação e análise estrutural, mas, antes, como pano de fundo de superação da dialógica separatista - ainda que o ecofeminismo seja rotulado como separatista e naturalizador da diferença.
Dentro disso, ele não seria muito diferente, não, em relação à herança que o Iluminismo trouxe em relação a simplesmente TUDO que se discute em termos de enunciados e valores (liberdade, dignidade etc.) já que, dentro do paradigma de discussão de igualdade proposto por alguns marcos feministas, a força motriz ainda é o substrato de dualidade mente/corpo que, ao final, faz a discussão voltar para o mesmo ponto: hierarquização, ainda que encoberta pela sutileza do manto da igualdade, a mesma que mata, pouco a pouco, um mundo interligado.

3 comentários:

  1. Excelente texto! Fiquei tão feliz com a leitura que repeti a dose, como um bom cálice de vinho! Chamou-me atenção seu translado no “modelo institucionalizado de academia cujos métodos me aborrecem a cada dia”. E, realmente, em nosso caso particular, lidar com uma ciência jurídica tão apegada ao “dever ser” ainda mostra-se algo totalmente desvinculado de uma realidade que “é”.
    Outro aspecto interessante de seu texto é quando você aborda que “o discurso esbarra num problema estrutural: nosso paradigma científico ainda se crava, finca - em desespero, é bem verdade - numa compreensão de mundo mecanicista e reducionista, que enxerga o mundo como um rato de laboratório e nós, maravilhosos seres, como cientistas que se colocam fora do objeto de análise”.
    Tal momento, assim como diversos outros do texto, me remeteram para Edgar Morin, teórico que fiquei muito afeito, até mesmo pelas inquietudes em comum que temos. De forma geral, Morin busca introduzir o leitor ao problema que intitula de “paradigma da simplicidade”, que mutila o pensamento do ser humano. Ele discorre sobre o problema da organização do conhecimento, evidenciando neste sua patologia e cegueira e incute no leitor a necessidade do pensamento complexo. Ao tratar com a complexidade, ele procura afastar-se do conflito da “simplicidade”. Esse conflito tem a ver com o modus operandi da ciência: separar (distinguir ou desunir); unir (associar, identificar); hierarquizar (o principal, o secundário); e centralizar (em função de um núcleo de noções mestras). Assim, Morin propõe o paradigma da complexidade.
    Além disso, Morin discute outros aspectos mais ligados a dar forma a seu pensamento complexo, a evidenciar os limites da ciência atual e mostrar os desafios na scienza nuova. Morin reflete sobre os conceitos de informação, ruído e conhecimento, e mostra como eles estão intimamente ligados à complexidade. Comenta sobre a forma departamentalizada da ciência, usando como exemplo, a filosofia, a sociedade e a psicologia em relação à ciência.
    Resta-nos saber até que ponto podemos pensar em um paradigma da complexidade na Ciência Jurídica. Porém, fica aqui minha sugestão.
    Beijocas.

    (MORIN, Edgar Introduction à la pensée complexe, Paris: ESF éditeur, 1990).

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  2. Oi Alessandra,

    Lindo o seu texto. Sei que deve estar saturada de ler tanta teoria feminista mas que tal o texto de Chantal Mouffe " Feminismo, cidadania e política democrática radical". Estou lendo agora e me parece bem interessante.
    Meados de dezembro estarei aí para gente papear bastante.
    Tereza

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  3. Olá!

    Crises....infinitas crises....

    abraço e beijo!

    Om Namah Shivaia!

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