segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Vivenciando o Sagrado nos caminhos da prática solitária


As primeiras palavras de um escrito são um começo. Disso ninguém duvida, até mesmo porque, antes das letras, fisicamente não existe artigo. Mas, poucas e afortunadas almas sensíveis indagam sobre a anterioridade do que se concretizou nas letras justapostas, trazendo o brotamento e a explosão do rico e denso conteúdo da alma de quem está imantando de sua mente o que escreve.

O que está por trás disso tudo é verdadeiramente mais importante, tanto para quem escreve - autêntica doação de suas entranhas - como, também, para quem, de alguma forma, procura absorver a delicadeza transmutada em prosa, verso, conto ou relato. Não seria exagero afirmar ser o caminho solitário do escritor até a concretização na aparência do real – mundo físico – o mais importante, por conta das marcas que agregam o espírito e que podem ser partilhadas com quem se encontra também na busca.

Assim sendo, não importa o físico paginado na grotesca bidimensionalidade “achatadora” da alma porque é na invisibilidade do mundo etéreo que a vida se processa. Tamanha riqueza e complexidade, lente alguma pode desnudar, pois, como diria Exupéry, o “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

O caminho do coração é a linguagem mais perfeita para a tradução dos anseios da alma e do espírito, não podendo ser substituído pelos labirintos de uma racionalidade tortuosa que, no suspiro pelo domínio e poder, empacotou milênios de conhecimento intuitivo em fórmulas mágicas, designadora de possíveis rascunhos que um Ser Superior utilizou em Sua aquarela criadora.

Qual é, portanto, o ato divino de gênese, a mais pura demonstração de arbítrio criador a dar origem às nossas conversas? Por que, dentre tantas opções, iniciei buscando razões, justificativas para algo tão aparentemente óbvio? Não seria mais fácil revelar detalhes técnicos, dados objetivos, ou, ainda, apelar para o aveludado “era uma vez”?

Simples. Porque esse artigo já teve vários inícios, todos rapidamente apagados da memória do computador, por não representarem o que minha alma busca incessantemente: recolhimento de fragmentos e reminiscências, ao longo de um percurso repleto de cores, amores e dores. Dentro do recolhimento feito em anos e anos de vivência pude, finalmente, colocar num papel toda a incandescente flâmula de experimentação, em vários níveis, do caminho no Sagrado Feminino.
Fui de um ceticismo cego até a mais pura demonstração de misoginia travestida de paganismo proselitista, coberto de dogmas, para mergulhar em mim e na intensidade do que significa o viver a Bruxaria, e não reproduzi-la em receitas ritualísticas.

Por isso, não tenho pretensão de recolher almas, ceifar séquitos, ou, ainda, retirar das livrarias cifras mercadológicas. Também não tenho a menor intenção de fazer um tratado em auto-ajuda, talvez porque não saiba, ainda, o que “auto” e “ajuda” poderiam significar para outra pessoa, que não para mim! Muito menos almejo virar autora de um best seller, pois meu propósito, até aqui, é muito mais simples: escrever para quem, de alguma forma, sente-se identificado com as marcas em meu caminho.

Portanto, se você estiver esperando uma fórmula completa e fechada de acesso à felicidade - miraculosa anestesia para as desventuras de todas as almas perdidas - aconselho a fechar imediatamente esse artigo: esses escritos não servem para você, pois não quero ou posso ajudá-lo. Meu compromisso limita-se a repartir a curiosidade que envolve a mente para algumas questões sobre a vida, os mitos e os discursos que estão em nossas vidas há tempos e que tentaram, a todo custo, aniquilar a sacralidade do feminino.

No caminho de lembranças dessa vida, aportei no dia 27 de março de 1973, próximo a Mabon, tendo como ascendente Áries, Sol neste mesmo signo, na casa 12, para onde vai também minha Vênus, também em Áries.

Desde cedo ouvia minha querida mãe numa mágica conversa com as plantas e os animais, percebendo na intrínseca conexão com a Natureza o engate para um revelador mundo sistêmico de reciprocidade e implicações mútuas de causa e efeito, tal qual intuiu Fritjof Capra em sua vasta bibliografia.

Percebo e vivencio o Sagrado Feminino como herança do que foi violentamente retirado pelo sopro conquistador de um astuto poder patriarcal, mas que foi salvo, de alguma maneira, pela transmissão hereditária de práticas, transformadas em histórias, mitos e fábulas.

Também partilho a idéia que o pensamento avassalador guiou o Império Romano ao aniquilamento das antigas culturas antigas, estando também presente no decorrer de todo o processo de monopólio de conhecimento produzido até a Idade Média, encerrando tudo em seus monastérios e encaminhando os questionadores às chamas das fogueiras.

Eis o motivo essencial da ligação entre o resgate da Antiga Religião e a contestação de uma estrutura de poder intolerante, violento e perseguidor, já que este trouxe, ao longo de nosso passado histórico e espiritual, inúmeras demonstrações de mentiras e impropriedades que precisam ser desnudadas no terceiro milênio, sob pena de continuarmos na ignorância e no preconceito.

Faz sentido, agora, a ausência de pretensão quanto ao dogma? Busco reformular em minha mente sucateada de posturas, os pensamentos e as valorações da vida e da realidade, num suceder geracional que se preocupa em pesquisar suas origens. Esse tem sido meu caminho: a busca de uma identidade, a partir das reminiscências gravadas do inconsciente coletivo para minha parcela de existência.

Sempre permaneci um pouco alheia àquilo que se definiu como “realidade” [1], pois além de ser filha única e ter construído um mundo excêntrico e particular, apreciava viver isolada de meus colegas na escola, pois as brincadeiras não me interessavam muito. Gostava de brincar com alquimia e magia, enquanto a meninada ficava na clássica “queimada”.

O contato com o universo simbólico mágico veio cedo. Minha avó, a matriarca do clã, levava-me para brincar com umas coleguinhas na casa de uma vizinha como uma vida muito, muito peculiar. Logo na entrada da casa, havia um corredor, embaixo de um túnel de plantas, uma espécie de caramanchão.

O jardim de dona Maju[2] tinha uma coletânea das mais belas e diversificadas plantas e flores, todas com um colorido espetacular, completado por anões de louça no centro. Eu achava o máximo, principalmente por não ver a chata da Branca de Neve por lá!

A porta de entrada da casa ostentava um sino dos ventos a tilintar, anunciando o interior de um aquecido lar, algo tão surpreendente, que as lembranças ainda agora me são nítidas, mesmo depois de 30 anos já passados! Basta fechar os olhos para a cena retornar ao meu coração com nitidez solar.

Ao fundo havia uma sala de jantar, separada do restante do ambiente por uma cortina de miçangas de conchinhas. A parede desta sala era feita de pedra, encerrando, logo atrás, uma lareira a ostentar um grande corno de cervo! Ai, ai, são descrições que nunca esquecerei.
Ah, e tinha mais! Desta sala partia uma porta lateral que desembocava num mini-jardim com musgos, plantas, trepadeiras e um sapo deitado próximo a uma escadinha que nos levava para uma laje, para tomar sol.

Deleitava-me neste imenso palácio de poder com meus amiguinhos, em brincadeiras que não poderiam ser diferentes do ambiente, pois viajávamos para outros mundos, sentindo e enxergando realidades que adulto algum seria capaz de entender.

Estávamos, num momento, na Grécia, dançando com Terpsícore, a semideusa – ou musa - grega da dança; em outro, numa fazenda. Nossas bicicletas de rodinhas eram motos, cavalos, naves espaciais. A casa era um portal dimensional que nos levava para terras longínquas, cujo retorno somente era possível quando nossas avós chamavam-nos para as refeições. Como explicar esse toque inventivo? Mágica.

Tudo isso era pactuado com minha adorável mãe, pois, afinal, era ela quem mais me estimulava nessa vida. Sou-lhe muito grata por ter me proporcionado uma infância livre, e uma vida igualmente livre, por meio da conscientização quanto às responsabilidades!

Pois bem. Você acredita que ela até me vestiu de Princesa? Em pleno Ostara! Lembro-me da fantasia: uma saia de tule branco, com apliques de fores coloridas, feitas por ela, de papel crepom. Na cabeça, um adorno com essas mesmas flores. Achei legal, pois todo mundo vestido da fadinha e eu, super diferente, de Princesa da Primavera!

Poderia gastar ainda mais palavras falando sobre todas essas histórias que servem de fundamentação da minha herança, mas acho que o livro não teria mais espaço para outros assuntos igualmente interessantes. Eis o motivo pelo qual falarei logo do download aos dezesseis anos, que fez com que eu me voltasse para a Arte.

Havia, sem êxito, tentado freqüentar cultos e reuniões de algumas religiões, vindo a insatisfação com a ausência de respostas e o simplório maniqueísmo de se dividir tudo e todos em conceitos tão banais de “bem” e “mal” [3], catálogos perigosos e eugenésicos, ambos definidores do destino de quem é rotulado.

Um belo dia estava a contemplar uma agenda presenteada por um amigo egípcio de minha mãe, quando fui arrebatada por uma tremenda vontade de escrever. Quando terminei, simplesmente havia registrado a estrutura de um coven completo, composto por graus e hierarquia: primeira sacerdotisa, segunda sacerdotisa, sacerdote, rainha e rei!

Decidi, então, chamar minhas vizinhas para iniciarmos nossa sociedade secreta! Claro que não deu certo, pois as jovens meninas acharam minhas idéias muito malucas, e acabaram não dando qualquer credibilidade. Hoje, depois de muito tempo, vim a compreender que aquele toque do Universo foi direcionado apenas para mim, não havendo qualquer sentido para outras pessoas. Segui, então, sozinha, o trilhar.

Tempos depois, fui aprovada no vestibular de Física, pois desejava ser astrofísica e contemplar os astros e a Lua. Na Universidade, meu pensamento voou longe.

Penso ter cursado o suficiente da Física para descobrir em Albert Einstein um grande Iniciado, em Fritjof Capra um vanguardista e em David Bohn um revolucionário. Quando percebi outros vôos possíveis, mudei para o Direito. Pôxa, você poderia dizer, o que tem a ver o Direito com a Física?

Ah, por favor! Não é à toa que tudo que tem sido até aqui exposto veio de toda uma história de vida pregressa essencialmente mágica! Não desejo ficar explicando em termos lógico-racionais o que está além deste véu de ilusão que insistimos em colocar em nossas frontes!

É o sentir que verdadeiramente importa. Sentir com cada elemento que compõe nossa imensa cadeia interacional, tanto em nível subatômico, com, também, em termos cosmogônicos!

Vivencio hoje a prática solitária, pois minha querida mãe reside em outra cidade. Tentei participar de grupos, ou, ainda, de encontros em torno de egrégoras[4], celebrando a Lua Cheia, mas minha veia lupina sempre me encaminhou para o retiro e recolhimento.

Cheguei a conhecer alguns grupos interessantes, com pessoas adoráveis, mas nunca permaneci muito tempo em coletividade, porque a sensibilidade em relação ao Sagrado veio apenas a partir do exato instante em que vivenciei a experiência sozinha, ouvindo a vibração de cada partícula do meu corpo.

Sinto o caminho solitário como uma via muito interessante de senda conectiva aos mistérios da Natureza e do Saber. Não afirmo isso porque me encontro na solitude, mas por extrair do aprendizado por tentativa e erro a necessidade de escutar os anseios do coração, pois a alma canta melhor na calmaria do espírito que foca sua essência. Dessa maneira, não é de fora para dentro que se revelam os mistérios antigos, mas, antes, da pulsação do que vem do fundo de nossa natureza que o Universo se revela.

Não seria prepotente de afirmar que o caminho é assim, parecido com uma experiência no laboratório do Dr. Maluco, porque não tomo a Natureza como objeto de estudo num sistema em que o controle dos dados está ao meu jugo! Ao contrário, neste cenário, antes da pesquisa exógena, o que procurei fazer foi construir as bases do caminho, a partir da auto-reflexão integrada ao Todo. A Natureza? Mestra, claro.


Resumindo: não conheço a verdade, não gosto de estruturar uma sistematização do pensamento, não obrigarei os leitores a seguir meus ritmos e ritos, pois a consciência quanto ao arbítrio e à manipulação impedem-me de agir de outra maneira.

Apenas desejo uma boa leitura – que pode ser feita na varanda ou em outro lugar aprazível, com uma boa xícara de chocolate quente com canela e cravo!!! O Sagrado Feminino e a bruxaria são o extraordinário contido nas singelas minúcias da vida, o pedaço mágico soterrado nos aspectos abscônditos do inconsciente primitivo de um mundo que está carente de contato com a Natureza de que é parte integrante.

Neste sentido, peguei meus grimórios sagrados e escrevi tudo que experimentei e vivenciei dentro do caminho em que sempre estive. O resultado estará disposto nas conversas seguintes, que espero serem de grande valia para os que procuram respostas.

Assim, a solitude é apenas aparente, porque advém, logo a seguir, a profusão da completude, que é exatamente a (re)conexão ao Universo, eterno berço de nossas trajetórias!

[1] Ao falar de “realidade”, refiro-me à estrutura que nossos sentidos físicos depreendem estado de percepção. A integralidade do viver, contudo, não se limita à delimitação corpórea, pois o Universo interacional perpassa nossos invólucros, para abranger uma série incognoscível de dimensões.
[2] Dona Maju para preservar a identidade de minha querida e doce senhora, envolta em suas batas e vestidos indianos, ostentando uma longa piteira!
[3] Claro que não desconsidero ou desrespeito as religiões que me dispus a estudar. Igualmente não desconheço uma existência dual de mundo. Questiono a maneira simplista de reducionismo com que certas verdades são apenas transmitidas, de maneira dogmática e pouco intuitiva, em relação a como o Universo delimita todo um sistema de forças e de energia.
[4] O que são egrégoras? Acho que a egrégora é a atmosfera psíquica que se dá como resultado de aglutinação de idéias-força, motivadoras de uma “massa”, ou melhor, de uma projeção resultante de pensamento ou de voluntariedade projetada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário